Operação prende investigador-chefe e infiltrados do PCC

Operação prende investigador-chefe e infiltrados do PCC

Brasil – O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) deflagrou, na manhã desta terça-feira (9), a Operação Infiltrados. A ação desarticulou uma rede de corrupção que divulgava informações e colaborava com um plano do Primeiro Comando da Capital (PCC) para assassinar um promotor de Justiça em Campinas (SP).

Foram presos o investigador-chefe da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Campinas, um ex-estagiário do Ministério Público e um ex-investigador da Polícia Civil. Foram cumpridos três mandados de prisão temporária — com todos os alvos detidos — e outros dez de busca e apreensão nas cidades de Campinas e Cardoso.

O Plano de Execução e o Vídeo Revelador

A ofensiva desta terça-feira é um desdobramento direto de ações anteriores do Gaeco, em especial a Operação Pronta Resposta, deflagrada em agosto de 2025, que prendeu dois empresários suspeitos de coordenar o plano de assassinato contra o promotor de Justiça Amauri Silveira Filho. A ordem para a execução, segundo as investigações, partiu de Sergio Luiz de Freitas, o “Mijão”, integrante da Sintonia Final da Rua do PCC, que vive há cerca de duas décadas na Bolívia e é considerado um dos maiores operadores do tráfico no Brasil.

O elo entre o Estado e a facção criminosa foi evidenciado por um vídeo obtido durante a investigação. As imagens mostram o momento em que o chefe dos investigadores da Dise de Campinas se encontra com um dos acusados de traçar o plano contra o promotor.

A reunião ocorreu cerca de uma semana antes da operação que prendeu os empresários no ano passado. O Ministério Público investiga se o objetivo do encontro foi repassar informações “privilegiadas e sensíveis” sobre a rotina de Silveira Filho e sobre a própria operação que estava prestes a ser deflagrada.

Extorsão e Infiltração no Ministério Público

Paralelamente ao plano de homicídio, a investigação revelou que as engrenagens da corrupção operavam também para a extorsão. O esquema era liderado por um ex-estagiário do próprio Ministério Público, que havia se infiltrado intencionalmente em uma das Promotorias de Justiça Criminais de Campinas para fins criminosos.

Valendo-se de bancos de dados e sistemas de pesquisa do órgão, o ex-estagiário identificava criminosos de alto poder econômico. Em um dos casos, um traficante ligado ao PCC, com atuação na região de Campinas, foi alvo de uma extorsão de R$ 500 mil. Em troca do dinheiro, o grupo oferecia suposta “proteção” e informações privilegiadas.

Para executar o crime, o ex-estagiário contava com o auxílio de agentes públicos, incluindo um policial penal e o ex-policial civil preso na operação de hoje — que já havia sido expulso da corporação anos atrás pela prática de extorsão mediante sequestro.

Ameaças ao Promotor Amauri Silveira Filho

O promotor de Justiça Amauri Silveira Filho, do Gaeco de Campinas, construiu uma carreira marcada pelo enfrentamento direto ao crime organizado, à corrupção policial e a esquemas de desvio de dinheiro público. Sua atuação rigorosa já lhe rendeu graves ameaças anteriormente.

Em 2013, o promotor recebeu uma carta com ameaças de morte, contendo informações detalhadas sobre sua vida pessoal, além de fotografias de sua residência e de seus familiares. O documento, que também mencionava outro promotor, foi assinado por “chumbo grosso com munições”. No mesmo ano, um suposto aliado do tráfico foi preso sob suspeita de planejar atentados contra integrantes do Gaeco.

As intimidações ocorreram após uma de suas investigações mais contundentes: a desarticulação de um esquema entre policiais civis e traficantes ligados a Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho. Mesmo preso desde 2002 em uma penitenciária de segurança máxima, Andinho ainda exercia forte influência sobre o tráfico.

A apuração conduzida por Silveira Filho revelou um profundo ecossistema de corrupção. Foram apontados como participantes do esquema 13 policiais civis e 10 integrantes do tráfico. Entre os investigados estavam delegados, investigadores, escrivães e carcereiros que vazavam operações, facilitavam crimes e extorquiam traficantes. Dois delegados do Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc) chegaram a ser presos durante a ação.

O Escândalo da Sanasa e suas Implicações

Além do combate ao narcotráfico, Silveira Filho foi peça central em um dos maiores escândalos políticos da história de Campinas. Ele atuou nas investigações das fraudes na Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa).

Deflagrada em 2011, a operação expôs um esquema de pagamento de propinas, fraudes em licitações e contratos superfaturados que unia empresários, servidores públicos e o alto escalão político da cidade. O impacto das denúncias foi devastador para o governo local: as provas embasaram os processos de cassação que culminaram no impeachment do então prefeito Hélio de Oliveira Santos. O vice-prefeito, Demétrio Vilagra, que assumiu o cargo na sequência, também foi afastado em consequência do esquema.

“As instituições estão trabalhando em conjunto para a depuração de seus quadros” — destacou o Gaeco em nota sobre a operação desta terça-feira, que contou com o apoio do 1º Batalhão de Ações Especiais (BAEP) e das Corregedorias das polícias Civil e Penal.

Até o fechamento desta reportagem, as defesas dos agentes públicos presos e do traficante Sergio Luiz de Freitas não haviam sido localizadas.